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quinta-feira, 11 de abril de 2013
"Eterno Retorno do Mesmo"
"A voz mansa do outro lado me convidava pro antigamente. Mas eu com a surpresa dele entulhando a minha voz de sustos, só conseguia respirar fundo no início. Não declamou poemas dessa vez, mas desatou em mim um monte deles, como sempre. E fui dormir mesmo sem sono, porque somente nos meus sonhos a nossa história acaba bem."
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Limpando o porão
Você pode até achar que eu não sabia, mas o meu peito apertado, sempre apertado, mesmo quando você era a coisa mais amorosa que poderia existir no mundo, mesmo assim, meu peito vivia apertado como quem está prestes a descobrir uma grande mentira. E a nossa doce mentira era esta: um casal que parecia ter nascido um para o outro. Mas você querendo que eu fosse mais ambiciosa e eu querendo que você fosse menos materialista e a gente quase enfartando com as nossas ansiedades agudas diárias e um tal de casamento que não era nem morar junto, mas quase era. A gente viveu um quase tudo adornado de poesia. Uma farsa cheia de lirismo, álcool e descompensação emocional. Tudo tão intenso: o beijo, o sexo, as conversas, as trocas, as parcerias, as diferenças, as semelhanças, as brigas. Depois você: a vítima. Depois eu: precisando reavaliar meu temperamento difícil. Mas você tratava mal os porteiros do seu prédio e eu pensava que nunca me casaria com alguém que trata mal um porteiro, mas eu queria que você me pedisse em casamento, mesmo que fosse para eu recusar... Eu teria recusado. Você sempre tão querido com seus superiores, simpático e engraçado, e tão irritadiço com a minha falta de ambição e com os seus subordinados. Eu querendo publicar meu livro, você querendo um apartamento de 6 milhões de dólares no Leblon. E você não pensou nos dias que dormimos juntos na sua casa ainda vazia, quando só havia um colchão e os lençóis que emprestei quando, depois da sua casa montada pelos móveis que ajudei a escolher, arrumou minhas coisas em sacolas de plástico barato pra dizer educadamente numa grosseria até então desconhecida, que definitivamente, era o fim. Depois, sua viagem marcada sem que eu soubesse, suas malas que eu não ajudei a arrumar para que você não esquecesse as coisas mais importantes como suas cuecas e carregadores de celular. E eu chamava nossa história de amor de cinema e todos que nos viam achavam a mesma coisa... E eu sofri tanto a sua falta, mas o meu peito não apertava mais porque eu deixara aquela mentira de lado. Pode parecer estranho que eu toque neste assunto depois de tanto tempo, mas eu precisava limpar este porão e criar um atelier nele. Porque agora com meu coração em paz eu consigo criar, porque agora eu só consigo ver transparência nas pessoas, e não alguém sobressaltado com senhas para tudo como se quisesse proteger sua grande mentira. Desculpa eu mexer nesta sujeira que já estava repousada no fundo do copo, mas como eu já te disse, eu preciso limpar este porão e talvez o sótão. E com meu coração tranqüilo, transformar estes espaços trancados há tanto tempo, num espaço aconchegante de criação, num atelier emocional onde eu possa colorir alegremente minha roupa, minhas palavras, minha nudez, minha falta de ambição...
Marla de Queiroz
sábado, 23 de julho de 2011
Porque eu não gosto (mais) de você...
Porque você me deu o melhor abraço noturno que alguém já me deu
e depois deixou meus braços órfãos.
Você me fez ler um escritor que eu não estava afim para que eu entendesse a sua filosofia de vida.
Fez-me tomar uma garrafa inteira de vinho sozinha com seu atraso e me encontrou de pilequinho só pra rir um pouco dos meus desvarios.
E me fez querer que fosse sábado no domingo...
Você tentou me convencer que estava tudo bem entre nós quando meu coração estava intranqüilo.
E parou de me ouvir em algum momento em que continuei falando, perdendo a parte mais importante da minha história.
Você me deixou sozinha... e ainda estava ao meu lado.
Você tirou o livro que estava no meu colo pra deitar sua cabeça
E absorveu do meu cafuné o melhor calor que havia em mim.
Visitou a minha casa, preencheu o lado esquerdo da minha cama.
E foi embora em algum momento sem se despedir, enchendo com palavras tristes aquela estrofe do meu poema incompleto.
Por que eu não gosto mais de você?
Porque você me fez dançar o bolero de Ravel e cantar com uma voz impecável o melhor jazz que já se ouviu mentalmente.
Porque me fez acreditar que os holofotes estavam todos voltados para mim e que você era minha platéia, e nem me visitou no camarim quando decretou que o show havia terminado...
Porque você arrancou de mim a inspiração que eu não tinha, me fez bolinar as palavras pra eu escrever pra você aquelas coisas doces e as esqueceu num canto qualquer do porta-luvas do seu carro... E tinha um coração palpitando ali...
Porque você me fez escutar a mesma música sozinha trilhões de vezes porque a melodia trazia um jeito seu pra perto.
Porque você não tirou nenhuma foto comigo, mas tocou violão olhando nos meus olhos naquele trecho da música em que a palavra amor aparece duas vezes...
Porque você me seduziu completa e absolutamente se fazendo deslumbrante quando não estava disponível afetivamente...
Porque você me roubou a solidão e não me fez companhia...
(Porque eu ainda gostaria de você? Porque quando uma pessoa vai embora, nem sempre o que se sente por ela vai junto...)
Eu quase ainda gosto de você...
sábado, 30 de abril de 2011
Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Ele não sabe mais (quase) nada sobre mim.
Não sabe que o aperto no meu peito diminuiu, que meu cabelo cresceu, que os meus olhos estão menos melancólicos, mas que tenho estado quieta, calada, concentrada numa vida prática, e sem aquela necessidade toda de ser amada.
Ele não sabe quantos livros puder ler em algumas semanas.
Não sabe quais são meus novos assuntos nem os filmes favoritos.
Ele não sabe (...) mas conservo alguma curiosidade em saber se o seu coração está mais tranquilo, se seu cabelo mudou, se o seu olhar continua inquieto. Ele nem imagina quanta coisa pude planejar durante esses dias e como me isolei pra tentar organizar todos os meus projetos.
Que tenho sentido mais sono e ainda assim, dormido pouco.
Que tenho escrito mais no meu caderno de sonhos.
Que aqui faz tanto frio, ele não sabe por mim.
Ele não sabe (...) que aprendi a não sobrecarregar meu coração, este órgão tão nobre.
Ele não sabe que eu entendi que se eu resolver a minha dor, ainda assim, poderei criar através da dor alheia sem precisar sofrer junto pra conceber um poema de cura.
Hoje foi um dia em que percebi quanta coisa em mim mudou e ele não sabe sobre nada disso.
Ele não sabe que tenho estado tão só sem a devastadora sensação de me sentir sozinha.
Ele não sabe que desde que não compartilhamos mais (quase) nada sobre nós, eu tive que me tornar minha melhor companhia: ele nem imagina que foi ele quem me ensinou esta alegria.
Marla de Queiroz
Alguma tristeza
Este silêncio é assustador. Não porque talvez ele não seja necessário, mas porque mesmo sendo necessário, ele machuca. E ando muito ferida pra suportar um pouco mais de dor. Então eu queria que alguém me dissesse que vai ficar tudo bem, sabe? Porque esta incerteza toda tem me desnorteado demais. E uma ansiedade aguda toma conta de mim minuto a minuto. E ainda há a saudade. E mesmo que as previsões sejam positivas, tudo ainda me parece tão longínquo! E estou com pressa, e sede e fomes demais.
Percebe como minhas palavras estão respirando com dificuldade? Então eu te peço pra não me deixar tão sozinha assim nesta fase. Mesmo que haja sol e as ondas vão e venham incansavelmente me lembrando do movimento da vida, a sua voz me faz tanta falta quanto uma brisa. Não que tenha me faltado companhia, mas em algum momento o abraço termina porque as pessoas têm as suas vidas. E ainda, o barulho das cidades têm me incomodado tanto quanto este silêncio denso. Então eu fico sem saber pra onde ir. E fico tão sonolenta e encolhida no meu canto até que alguém venha me abraçar novamente. E às vezes esse socorro demora tanto por causa da minha necessidade sempre tão urgente de tudo. De paz. Por não querer sufocar ninguém, fico aqui, sufocada.
Percebe como minhas palavras estão respirando com dificuldade? Então eu te peço pra não me deixar tão sozinha assim nesta fase. Mesmo que haja sol e as ondas vão e venham incansavelmente me lembrando do movimento da vida, a sua voz me faz tanta falta quanto uma brisa. Não que tenha me faltado companhia, mas em algum momento o abraço termina porque as pessoas têm as suas vidas. E ainda, o barulho das cidades têm me incomodado tanto quanto este silêncio denso. Então eu fico sem saber pra onde ir. E fico tão sonolenta e encolhida no meu canto até que alguém venha me abraçar novamente. E às vezes esse socorro demora tanto por causa da minha necessidade sempre tão urgente de tudo. De paz. Por não querer sufocar ninguém, fico aqui, sufocada.
Só estou te dizendo estas coisas porque acho estranho você não ter a menor curiosidade em saber como tenho me sentido. Depois de tudo. Porque não existe um segundo sequer em que eu não pense e queira saber e deseje que você esteja bem. Só isso.
Marla de Queiroz
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