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sábado, 22 de janeiro de 2011

Cada um no seu passado



Passado é uma merda. Você começa a namorar e o passado do cidadão vem junto. É aquela melhor amiga que já foi pegueti dele um dia e agora frequenta a casa dele e convida ele pras baladas. É aquela prima que ele passou a vida inteira babando nela e de repente começa a dar bola pra ele (e você, óbvio, não tem direito de sentir ciúme de “prima”). É aquela ex-namorada que morou junto na mesma casa e dormia na mesma cama que hoje você dorme. É aquela cama, inclusive, pra onde ele levava uma mulher diferente toda semana, em que você vai ter que dormir. É aquele monte de merda que o cidadão te contava que fazia. É com isso que você vai te que conviver agora.

Ter um relacionamento, seja ele qual for, não é fácil. Ter um passado, seja ele qual for, é inevitável. Tem gente que traz um final de casamento mal resolvido. Tem gente que traz uma penca de filhos. Tem gente que traz uma ex-namorada que não sai da cola. Tem gente que traz filho que nem sabia que tinha e que aparece dez anos depois. Tem gente que traz traumas de relacionamentos antigos. Tem gente que traz medos. Decepções. E mágoas.

O passado deveria servir pra trazer aprendizado. Experiências positivas. Esperança. E ficar pra trás. O passado não deveria ser uma mala que você carrega a viagem inteira. Tudo que se vive é válido. É lindo (algumas vezes). Mas é passado. Serviu como experiência, mas passou. Passado.

Tem gente que não consegue simplesmente deixar ir. Eu tenho amiga que ainda liga pro ex-namorado depois de três anos que terminaram. O pobre coitado do sujeito já explicou mil vezes que tá namorando com outra, que vai se casar e ela não se toca. Tenho outra que coleciona namorados. Namora com um, mas continua de rolo com os ex, pelo simples fato de não conseguir largar o osso. E nisso, já está no terceiro namorado fatorial.

Seria muito bom que você pudesse interagir com alguém como se nenhuma das partes tivesse vivido experiências boas ou ruins. Como se fossem uma página em branco. Mas não é assim que funciona. Você e todo mundo têm uma memória interna. Um HD onde a gente vai salvando as coisas, deletando umas e outras por descuido – ou por querer – pra caber mais coisas de novo. E nesse HD a gente guarda tudo, desde que a gente nasceu. Pra isso serve essa memória interna. Porque é lá onde as coisas que passaram devem permanecer. Nas lembranças. Quando o passado começa a brigar com o presente, é porque alguma coisa está errada. Fora de lugar. Um deles está invadindo o espaço do outro. Seu passado é só seu. O passado do outro é só do outro. E, se esse passado não foi vivido junto no seu devido tempo, não tem porque ser vivido junto no presente.

(Brena Braz)

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Amo



Seria muito fácil escrever um texto de dia dos namorados pra você não fosse o fato de que você resolveu escrever um texto pra mim também. Assim não vale. Você faz isso muito melhor do que eu e sabe disso. É o seu dom. É o que você sabe fazer, como você mesmo diz. Agora fudeu. Agora vou ter que procurar palavras bonitas, tentar não rimar cão com chão e evitar exclamação. Coisa de publicitário!

Quando eu lia seus textos e tentava entender o que você escrevia, antes mesmo da gente se conhecer, eu já sabia que não ia ser fácil. Quando eu te bloqueava por um mês inteiro no MSN, você nem calculava que eu ia dar muito mais trabalho do que você podia imaginar. É. O começo não foi fácil mesmo. Eu achava que fosse namorar você e continuar solteira. Você de lá e eu de cá. Tudo certo. Achei que dava pra fazer as duas coisas ao mesmo tempo, afinal não era pra ser nada sério mesmo. Mas isso era só o começo.

Isso foi antes de eu descobrir que você organiza as latinhas de refrigerante em linha (!!!) na geladeira. Que você é tão organizado que paga previdência privada e alinha também as almofadas em cima da cama. Que arruma a própria cama. Que arruma tudo que eu bagunço na sua vida. Que você lava as roupas coloridas separadas das brancas e separadas das escuras. Isso foi antes de eu descobrir que eu ia ser só sua. Isso foi antes de eu te conhecer. Isso foi antes de eu me apaixonar. Agora fudeu. Agora eu bagunço sua cama e você não liga. Eu deixo todas as luzes da casa acesa e você vem atrás apagando. Eu faço você assistir Sex and the City comigo - na primeira fila porque eu esqueci os óculos em casa. E você vai. Você faz tudo com o maior prazer. Faz todas as minhas vontades. Me mima. Cuida de mim. Você se preocupa se eu vou arrumar logo um emprego. Você quer me levar ao médico cada vez que eu dou um espirro diferente do normal. Você quer me levar sempre aos melhores lugares. Você faz questão que eu esteja linda. Mais porque sabe que eu me preocupo com a aparência do que por você mesmo. Por você eu poderia acordar e dormir descabelada. Você consegue me achar linda de manhã cedo e fazer eu me sentir a Gisele Bundchen. Você diz que me ama vinte vezes por dia e me faz querer passar o resto dos meus dias com você. Faz eu esquecer que era pra escrever um português bonito, sem palavrões e com tom de poesia.

Agora já era. Ta tudo dominado. Você quer confiscar minha calça jeans velha que marca a bunda, estica o olho cada vez que apita uma mensagem no meu celular e liga de dez em dez minutos toda vez que eu saio de casa depois das nove da noite. E ainda reclama que eu tenho ciúme. Reclama dos meus achismos. Reclama do decote. Reclama da saudade. Reclama do tempo. Reclama de tudo só pra exercitar. Exercitar a chatura. A chatura que eu amo.

Não acredito em datas comerciais. Pra mim, isso é um desculpa sem contexto pras pessoas gastarem dinheiro. E a gente, que deu pra entender de palavras, gasta texto. Eu aqui virando a noite pra colocar no papel meia dúzia de frases legais e você já no décimo sonho porque em meia hora escreve um texto que eu não escreveria nem se passasse todas as noites da minha vida em claro. Por isso prefiro passá-las com você. Pra ver se eu pego um pouco do seu talento pra mim. Pra colar uma linha de cada página que você escreve. Pra ficar admirando suas palavras. Ou simplesmente pra ficar com você mesmo. Pro resto das minhas noites.



Brena Braz

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Orgulho



Mal acordei hoje porque mal dormi. Pisco o olho e vejo seu rosto. Fecho os olhos e seu olhar assustado me olhando, ontem à noite, não me sai da cabeça. E se você quer saber, tá foda mesmo. Tá foda ter que fingir que eu não to nem aí se te vejo com outra. Tá foda esperar por uma ligação que nunca acontece. Tá foda não poder te ligar porque meu orgulho idiota não deixa. Tá foda saber que você não me liga porque seu orgulho muito mais idiota que o meu não deixa. Tá foda agüentar a sua covardia e muito mais a minha que só conseguiu juntar algumas palavras toscas e escrever um texto. Tá foda fingir pra mim mesma que não tá foda toda vez que eu te vejo. Tá foda até quando eu não te vejo.

Eu não sei quantos anos a gente finge que tem, mas a gente não é adulto o suficiente pra conversar como deveria. Eu não sei o que essa merda desse orgulho idiota faz na vida da gente que não deixa a gente ser a gente e simplesmente viver. Que não deixa a gente se entender. Que não deixa a gente se querer mesmo sem entender. Eu não sei e se soubesse também não saberia explicar. O que eu sei é que tá foda te ver e não poder te querer. Ainda ter seu telefone e não poder te ligar. O que eu sei é que por meia dúzia de atitudes idiotas, a gente nunca mais se falou. Meia dúzia e duas pessoas idiotas.

Isso não combina comigo. Fingir que nada aconteceu, fingir que não te conheço, fingir que não te vejo e fingir que não te quero. Pro inferno com esse negócio. Já devo ter te contado que sou péssima atriz. Finjo pra mim mesma e nem eu acredito. E não acredito que você não me quer mais. Não acredito que você me viu ontem e não sentiu um friozinho na barriga. Não acredito que você só me quis por causa da minha barriga. Não acredito que a gente daria certo por mais que uma noite de festa. Não acredito na gente, na verdade. E, mesmo assim, não acredito que seja o fim.

Na verdade, não sei mais em que acredito. Eu, que já acreditei em você, não acredito em mim mesma escrevendo esse texto. Eu, agora, nada sei, só sinto. E o que eu sinto é que eu engasgo com a respiração quando você passa do meu lado. Sinto que o homem forte que você é fica sem saber o que fazer quando me vê. Sinto muito, mas a gente ainda sente. E acho que se não sentisse, a gente deixaria a porra do orgulho de lado. Sinceramente, você nunca foi meu homem-objeto como você pensava. E, no fundo, eu sei que não fui só um corpo que te fez companhia nas festas onde você nunca precisou de mais nada além da sua vodca com energético. Você sempre foi uma boa companhia e um papo inteligente. Eu sempre fui uma piada nos momentos trágicos e um carinho no seu cabelo. E, por mais que eu nunca tivesse acreditado num final feliz pra gente, eu nunca imaginei que o desfecho fosse esse. Nunca imaginei que nosso orgulho fosse separar a gente.

Brena Braz