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sábado, 15 de outubro de 2011

Todos os dias...


Todos os dias eu quase te ligo, 
eu quase consigo ser leve e te dizer: “Ei, não quer ir no parque? A temporada ta acabando…” 
Eu quase consigo te tratar como nada. 
Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. 
Mas não vira nada nunca.


Caio F. Abreu

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Capitu


Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. Estranho é que ela já apanhou demais da vida. Essa moça tem relacionamentos estranhos, acho que ela está condicionada a ser uma pessoa substituta. E quem não é? A gente sempre acha que é especial na vida de alguém, mas o que te garante que você não está somente servindo pra tapar buracos, servindo de curativo pras feridas antigas? A moça…ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Porque amar também é isso, não? Dar o seu melhor pra curar outra pessoa de todos os golpes, até que ela fique bem e te deixe pra trás, fraco e sangrando. Daí você espera por alguém que venha te curar. Às vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará. A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário… Por saber que é fraca o bastante para não conseguir ter ódio no seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda. Afinal, foi chorando que ela, você e todos os outros, vieram ao mundo.

Caio Fernando de Abreu.

domingo, 18 de setembro de 2011

Queria te contar


Eu queria te contar que não dói mais. Só que agora não importa tanto o que você vai pensar sobre isso. Queria que você soubesse que já vi nossos filmes milhares de vezes e nem chorei. Ok, chorei. Mas pelo filme, e não por você. Queria que você soubesse que tirei a poeira das nossas músicas, e que as ouço quase todos os dias. Porque elas me faziam mais falta do que você fez. Os nossos lugares não são mais nossos. Eu já voltei lá com outras pessoas, e escrevi lá outras histórias... Eu estou aprendendo a tocar violão. E a primeira música que toquei foi aquela música que era uma espécie de hino pra nós dois. Ela é tão linda...e sim, ela continua sendo muito nossa e lembrando demais você. Mas ainda sim, não dói. Você não pergunta essas coisas, mas sei que gostaria de saber. Porque te conheço. E isso não mudou. Do mesmo jeito que adivinhei as coisas ruins que você aprontaria, eu sei as coisas boas que ficaram aí em você e te fazem lembrar de mim. Porque a vida segue. Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás. 


(Caio F. Abreu)

quarta-feira, 2 de março de 2011

"O outro"

"Poxa, to só obedecendo todo mundo.
Não é isso que todo mundo acha super divertido?
Beber e fumar, e beber, e fazer sexo sem amor, e beber e fumar e dançar e chegar tarde e envelhecer e não sentir nada?
Sabe Zé, no começo doeu não sentir nada. Mas eu consegui. Eu não sinto nada. Nada.
Uns vem, uns vão. As garrafas tão lá, ao lado do lixo. As cinzas saem dançando por aí. As minhas vão junto.
No dia seguinte eu acordo, tomo um banho, passo protetor solar, sento na minha varanda com o meu jornalzinho e ó: nada. Nadinha.
Nem pena do mundo eu consigo mais sentir.
Minha pureza era linda, Zé, mas ninguém entendia ela, ninguém acolhia ela. Todo mundo só abusava dela.
Agora ninguém mais abusa da minha alma pelo simples fato de que eu não tenho mais alma nenhuma.
Já era, Zé.
É isso que chamam de ser esperto? Nossa, então eu sou uma ninja.
Bate aqui no meu peito, Zé? Sentiu o barulho de granito? Quebrou o braço, Zé? Desculpa.
Mas hoje é quinta, hoje tem visita. Hoje tem risada alta, tem festinha, tem maquiagem e música.
O senhor promete que não me julga, Zé? Eu sei que você se atrapalha, liga aqui pra cima e fica até mudo. São tantos nomes, não é?
Mas é só fazer que nem eu: chama todo mundo de “o outro”. Todos são outros.
Porque o de verdade, Zé, o de verdade não existe.
A gente chora, escreve lá umas poesias profundas, chora, mas um dia a gente acorda e descobre que esse aí não existe não. "

(Caio F Abreu)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Mas se você não me procura, é porque consegue viver bem.


As vezes brigo com o mundo. Brigo com tudo, com todos. Amigos, inimigos, amores, espelho, porta de casa que não abre... E no fundo acabo descobrindo que queria mesmo é brigar comigo.

Eu que não aprendo que não posso cobrar que as outras pessoas tenham as mesmas atitudes que eu teria. Pessoas são diferentes. Eu sou previsível. E não é porque eu sou assim que eu posso exigir que todos sejam. Não é porque eu sou transparente que eu posso exigir que os outros sejam. Não é porque eu me posiciono firmemente, ou burramente?, que eu posso exigir que as outras pessoas compreendam que eu tenho meus motivos. Que foi a minha história que me fez assim.

E quando eu faço as coisas que eu julgo corretas, mesmo que minha visão do correto seja deturpada para alguns, e quando faço as coisas que gostariam que fizessem comigo, como, falar a verdade na minha cara, brigar comigo para que eu não brigue; acabo ferrando com tudo. 

Aí as pessoas não me entendem. E eu não entendo as pessoas, e brigo, e me arrependo, e choro, e volto a brigar, e começo a também não me entender.

Depois é só culpa e espera. Espera pelo toque do telefone. Espera pelo e-mail ou pela chamado no comunicador, espera pela compreensão, espera pelo perdão, espera por um "eu te entendo" que não virá.

O dia seguinte é sempre assim. Um vazio aqui dentro. Uma decepção silenciosa que me oprime cada vez que me vejo em mim. E o resto do dia é marasmo, é aguardo, é silêncio. Houve o tempo em que eu acreditava que poderia me mudar. Hoje, apenas tento evitar que estas coisas aconteçam, e quando acontecem, fazer o quê? Dar os ombros e continuar. Digerir estes sábados e estes domingos calados, algumas vezes como a garganta engasgada, outras, como o silêncio após os estrondos. Digerir.

Levantar como se eu não estivesse triste. Levantar como se minhas espectativas não tivessem sido frustradas, quebradas. Levantar como se a naturalidade das minhas explosões sejam tão aceitas quanto as inevitáveis catástrofes naturais, já que ninguém questiona a erupção de um vulcão. E reconstruir. 

Eu posso sobreviver com isso, e se você não me procura, é porque consegue viver bem, depois.

Que bom. Talvez no final eu descubra que a única pessoa que sai realmente triste e decepcionada após essas minhas coisas, seja eu. Assim aprenderei a me sentir melhor, afinal, me machucar é até normal. O problema é machucar os outros.

(Caio F. Abreu)

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

Remar, re-amar, amar



Já não sei dizer se ainda sei sentir. O meu coração já não me pertence, já não quer mais me obedecer! Parece agora estar tão cansado quanto eu. Até pensei que era mais por não saber que ainda sou capaz de acreditar. Me sinto tão só e dizem que a solidão até que me cai bem. Às vezes faço planos, às vezes quero ir para algum país distante e voltar a ser feliz! Já não sei dizer o que aconteceu se tudo que sonhei foi mesmo um sonho meu. Se meu desejo então já se realizou o que fazer depois, pra onde é que eu vou?Eu vi você voltar pra mim; Olha, eu sei que o barco tá furado e sei que você também sabe, mas queria te dizer pra não parar de remar, porque te ver remando me dá vontade de não querer parar tambémTá me entendendo? Eu sei que sim. Eu entro nesse barco, é só me pedir. Nem precisa de jeito certo, só dizer e eu vou. Faz tempo que quero ingressar nessa viagem, mas pra isso preciso saber se você vai também. Porque sozinha, não vou. Não tem como remar sozinha, eu ficaria girando em torno de mim mesma. Mas olha, eu só entro nesse barco se você prometer remar também! Eu abandono tudo, história, passado, cicatrizes. Mudo o visual, deixo o cabelo crescer, começo a comer direito, vou todo dia pra academia. Mas você tem que prometer que vai remar também, com vontade! Eu começo a ler sobre política, futebol, ficção científica, o que for. Aprendo a pescar, se precisar. Mas você tem que remar também. Eu desisto fácil, você sabe. E talvez essa viagem não dure mais do que alguns minutos, mas eu entro nesse barco, é só me pedir. Perco o medo de dirigir só pra atravessar o mundo pra te ver todo dia. Mas você tem que me prometer que vai remar junto comigo. Mesmo se esse barco estiver furado eu vou, basta me pedir. Mas a gente tem que afundar junto e descobrir que é possível nadar junto. Eu te ensino a nadar, juro! Mas você tem que me prometer que vai tentar, que vai se esforçar, que vai remar enquanto for preciso, enquanto tiver forças! Você tem que me prometer que essa viagem não vai ser a toa, que vale a pena. Que por você vale a pena. Que por nós vale a pena.
Remar.
Re-amar.
Amar.

Caio F. Abreu

sexta-feira, 24 de setembro de 2010


"(...) Pedi uma definição: ou me quer e vem, ou não me quer e não vem. Mas que me diga logo pra que eu possa desocupar o coração. Avisei que não dou mais nenhum sinal de vida, e não darei. Não é mais possível. Não vou mais me alimentar de ilusões. Prefiro reconhecer com o máximo de tranquilidade possível que estou só, do que ficar a mercê de visitas adiadas e encontros transferidos. 
      Chega uma hora na nossa vida que a ficha cai.. essa hora, na minha vida, acabou de chegar. Sabe aquele discurso clichê que fazemos às amigas.. aqueles do tipo ‘Por que ele não se decide?’ ‘Eu não mereço isso’ ‘ o que eu tenho de errado?’ Pois é.. chega uma hora que a gente entende que tudo acontece simplesmente porque a gente permite que aconteça... Pelo menos a minha realidade é assim. Algumas idas e vindas acontecem, porque eu permiti que elas acontecessem. Mas chega uma hora que você vê que precisa amadurecer, crescer, resolver historias mal-resolvidas... E se não quiserem resolver com você, bom, ai você simplesmente esquece. Porque você percebe que é especial e que merece coisas boas, que merece não mais aquele discurso infeliz que começa com ‘é porque não tenho certeza, me desculpa...’ Chega um momento que você tem a capacidade de dizer ‘então tá... seja feliz.’ Até chegar a esse nível... são muitos sofrimentos, muitas pancadas, coração sendo destruído e reconstruído inúmeras vezes. Mas porque nós sempre permitimos. EU não permito mais.. não permito mais ficar sempre na dúvida, não me permito mais viver presa a uma coisa incerta, e “ se por acaso nos encontrarmos, vai ser lindo. Se não, nada há fazer”. Mas por enquanto.. pé na estrada! E viva o novo!




Caio F. Abreu 

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Fragmentos disso que chamamos de "minha vida"



"Há alguns anos. Deus — ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus —, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro.

Antes que pudesse me assustar e, depois do susto, hesitar entre ir ou não ir, querer ou não querer — eu já estava lá dentro. E estar dentro daquilo era bom. Não me entenda mal — não aconteceu qualquer intimidade dessas que você certamente imagina. Na verdade, não aconteceu quase nada. Dois ou três almoços, uns silêncios. Fragmentos disso que chamamos, com aquele mesmo descuido, de "minha vida". Outros fragmentos, daquela "outra vida". De repente cruzadas ali, por puro mistério, sobre as toalhas brancas e os copos de vinho ou água, entre casquinhas de pão e cinzeiros cheios que os garçons rapidamente esvaziavam para que nos sentíssemos limpos. E nos sentíamos.

Por trás do que acontecia, eu redescobria magias sem susto algum. E de repente me sentia protegido, você sabe como: a vida toda, esses pedacinhos desconexos, se armavam de outro jeito, fazendo sentido. Nada de mal me aconteceria, tinha certeza, enquanto estivesse dentro do campo magnético daquela outra pessoa. Os olhos da outra pessoa me olhavam e me reconheciam como outra pessoa, e suavemente faziam perguntas, investigavam terrenos: ah você não come açúcar, ah você não bebe uísque, ah você é do signo de Libra. Traçando esboços, os dois. Tateando traços difusos, vagas promessas.

Nunca mais sair do centro daquele espaço para as duras ruas anônimas. Nunca mais sair daquele colo quente que é ter uma face para outra pessoa que também tem uma face para você, no meio da tralha desimportante e sem rosto de cada dia atravancando o coração. Mas no quarto, quinto dia, um trecho obsessivo do conto de Clarice Lispector "Tentação" na cabeça estonteada de encanto: "Mas ambos estavam comprometidos.

Era isso — aquela outra vida, inesperadamente misturada à minha, olhando a minha opaca vida com os mesmos olhos atentos com que eu a olhava (...)"

Caio F. Abreu

domingo, 31 de janeiro de 2010

"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia no meio da chuva, eu enfiava as mãos avermelhadas nos bolsos e ia indo, eu ia pulando as poças d’água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar meio bêbado na casa dele, hálito ardido, eu não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando sem táxi naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, para que ele não visse meu dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."

Caio Fernando Abreu