quis voltar correndo. quis bater tão forte na sua porta que certamente destruiria ela e todos os cômodos da sua casa. quis gritar pra deus me levar pra qualquer lugar que não pra dentro de mim, porque era dentro de mim que te queria como ninguém nunca quis. era dentro de mim que as coisas aconteciam. as paranóias. as tristezas agudas. as vontades violentas de fugir de casa. de trocar de pele. de nunca mais tentar nada novo, com ninguém.
quis voltar correndo. pedir que você reconsiderasse o meu amor, que nunca tinha dado assim pra alguém. meu amor, que nunca tinha sido embalado tão preciosamente a ponto de nenhuma outra pessoa, além de você, ter tocado nele; ter olhado no olho dele; ter vestido e feito de roupa quentinha no frio. quis voltar correndo e perguntar por quê? por que você estava me machucando tanto se havia amor. questionava-me a todo tempo como o amor poderia, em algum momento, ser um espinho que vai entrando no pé. quanto mais andava para longe, mais doía saber. porque você continuava ali. quanto mais eu corria, mais para dentro o espinho ia. ficou na perna. estagnou no coração, músculo, artéria.
quis voltar correndo. estender meu corpo na calçada para que você não saísse para trabalhar. para que me visse em processo de crescimento: quando a casca vai saindo da pele e as asas vão crescendo. eu precisava tanto crescer. você também. mas eu queria que você visse que eu estava tentando. ainda que com dor, ainda que sem saber como respirar, ainda que precisando desesperadamente colocar a mão na boca. para não gritar. não incomodar os vizinhos. não fazer com que soubessem que eu estava em carne viva.
quis fechar meus olhos para a vida. fechei as cortinas de casa. nenhuma alegria me entrava nos poros. nenhum outro cara me fazia reluzir. nada tinha gosto na minha boca que sempre foi faminta. você me adoecia ao passo que eu tentava assimilar o que o mundo era, àquela altura pra mim.
e o que era?
não sei. nunca tive discernimento para entender aquela fase crucial para me tornar o que sou hoje.
o mundo reage à nossa visão de maneira distinta quando acumulamos conhecimento, sabedoria. naquele momento, quanto mais sabia sobre mim e conhecia meu fundo do poço, mais o mundo ia entrando no meu peito e me convidava para um caminho de reconstrução.
que não vem fácil. nunca vem.
e que é solitário. puta merda, como é solitário.
o trajeto que você fará daqui até o dia em se encontrará livre. o caminho que você fará daqui até o dia em que, lavando a louça, perceberá que ele terá ido. graças a todos os deuses, ele terá ido. graças às vezes que você chorou apertado entre a cama e a parede para não acordar ninguém em casa. graças aos dias que você se conteve de dor, tanto que precisou fechar os olhos para não entender que aquela dor ali, aquela dor ficaria ali por mais algum tempo. porque você se conhece, no final das contas. você sabe que vai doer hoje. amanhã. daqui um mês. seu coração é terra que só você vê.
o mundo me convidada para, então, seguir.
e meus pés sangravam.
quanto mais eu caminhava, mais dor sentia.
era o espinho entrando na memória da pele e me fazendo perceber que
a distância entre nós ficava cada vez maior.
quis olhar para trás. segurar sua mão pela última vez e permanecer intacto pela ideia de que a dor sobreviria a mim, me colocaria em quartos escuros, me tiraria a sanidade por algumas semanas. quis evaporar feito água em época de verão. quis virar pó e me teletransportar para o quente e confortável que era viver sem saber que fins existem. mas existem sim, e são tantos. cotidianos, necessários, intermitentes.
quis abrir o peito para que a chuva dos dias cinzentos dormissem em mim. quis rasgar a pele para que as feridas dessem de ombros e me esquecessem. quis que o amor desaparecesse para sempre dos meus olhos, daquilo que construí e chamei de vitória.
quase bato na sua porta dia desses. os cômodos de nós dois não resistiriam a tantas coisas que eu te diria sem pudor algum. que em mim ainda há rios intermináveis de palavras que poderiam afetar aquilo que somos no agora.
mas não voltei. passei direto.
graças ao universo que tem considerado que devo ser feliz ainda que com lembranças de quando acreditava na plenitude das relações.
e eu tenho sido.
via: @textos cruéis demais para serem lidos rapidamente ♥