Eu te disse desde o começo que nós éramos diferentes demais - mas isso não queria dizer que não poderíamos funcionar.
Você, todo certinho
Eu, toda desregrada
Você que cultiva os seus relacionamentos como quem cuida de um campo de morangos perfeito
Eu que mal aprendi a plantar.
Sabíamos que seria difícil e mesmo assim a gente quis insistir
Você, eu não sei por que
Eu, porque sabia que você tinha exatamente o quê.
O quê que eu precisava, do jeito que antes eu nunca tinha encontrado em outro alguém.
Por isso eu fui caminhando vez ou outra segurando nas suas mãos, com o meu passo incerto, inseguro, com muito medo de cair da corda bamba que eu mesma criei
E você me olhando e sorrindo com o orgulho de quem já esteve aqui e já aprendeu a se equilibrar.
deu certo.
A gente se encontrou e se encontra diariamente na nossa confusão de sentimentos que nenhum dos dois sequer tentou denominar.
Cê teve medo de que eu explodisse nas suas mãos, como uma bomba que não pôde desarmar
e
eu explodi
mas pela primeira vez foi uma explosão mansa, calma, que ao invés de te machucar
te mostrou que furacões como eu também podem aprender a ser serenos.
terça-feira, 1 de agosto de 2017
Periférico
Pareço um sapo cego dando uma linguada no ar, não
vejo o inseto, mas sei que ele está lá. Molho o ar na espera de lamber sua
coxa, a pele com menos pêlos atrás do seu joelho. Lamber sua virilha, sentir
seu cheiro, brincar com seu umbigo perfeito e boquiaberto por causa da
barriguinha. Quem sabe descobrir alguma sujeirinha ali no umbigo, um resto de
algodão, um resto de salgadinho vagabundo, um resto de prazer. Eu te amava
depois do banho, eu te amava indo trabalhar sujo de mim, eu te amava humano e
eu te amava, sobretudo, alienígena e com sono de sentir a vida.
Sinto
saudades de respirar o mais profundo possível, como já escrevi antes, perto de
sua nuca. E descobrir novidades sem nome e sem solução. Sinto saudades de me
perder tentando entender de que tanto você sorria, de que tanto você brilhava,
de que tanto você se perdia e se escondia.
Peço
licença ao meu ódio tão feio e tão infinito para te amar só mais uma vez. Quero
te amar sozinha aqui, na minha casa nova, em minha quase nova vida. Quero
esquecer todo o nada que você representa e dar contorno aos desenhos que não
saem da minha cabeça. Nunca entendi seu coração, nunca entendi seus olhos,
nunca entendi suas pernas, mas só por hoje queria poder lamber sua fumaça para
que ela permanecesse mais, pesasse mais.
É
libertador esquecer meu desejo de vingança, a vontade que tenho de explodir sua
vida, o vício que tenho de passar mil vezes por dia, em pensamento, ao seu
lado. E pisar em cima da sua inexistência e liberdade. Chega disso, só pelo tempo
em que durarem estas letras e a música que coloco para reviver você, vou te
amar mais esta vez. Vou me enganar mais uma vez, fingindo que te amo às vezes,
como se não te amasse sempre.
Eu
nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde
vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca
entendi como podia ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me
aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.
Nós
éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. Ainda assim, há
meses, há séculos que se arrastam deixando tudo adulto demais, morto demais,
simples demais, exato e triste demais, eu sinto sua falta com se tivesse
perdido meu braço direito
.
Esse
amor periférico, ainda que não me deixe descoberto o peito, me descobre os
buracos. Não são de suas palavras que sinto falta. Não é da sua voz meio
burralda e do seu bocejo alto demais para me calar e me implorar menos
sentimentos. Não é, tampouco, do seu abraço. Sua presença sempre deixou lacunas
e friagens que zumbiam macabramente entre tantas frestas sem encaixe.
Não
sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem
sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.
Sinto
falta mesmo, para maior desespero e inconformismo do meu coração metido a
profundo, de lamber suas coxas, a pele mais lisa atrás dos joelhos. Lamber sua
virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo, respirar sua nuca, engolir
sua simplicidade, me rasgar com sua banalidade, calar sua estupidez, respirar
seu ronco, tocar sua inexistência, espirrar com sua fumaça.
Sinto
falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão
insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas
de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as
minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não
queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes
maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso
era lindo. Você era lindo.
Simplesmente
isso. Você, uma pessoa sem poesia, sem dor, sem assunto para aguentar o
silêncio, sem alma para aguentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o
tempo parasse. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me
levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites
sem aconchego, tardes sem beleza.
Sinto
falta da raiva, disfarçada em desprezo, que você tinha em nunca me fazer feliz,
sinto falta da certeza de que tudo estava errado, mas do corpo sem forças para
fugir, sinto falta do cheiro de morte que carregávamos enquanto ainda era
possível velar seu corpo ao meu lado, sinto falta de quando a imensa distância
ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus
ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia
fazer que não via nada. Sinta falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância,
de não dar conta, de não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem
medo, nem alma suficientes para me reter.
Prometi
não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta
de lamber suas coxas, a pele lisa, o joelho, a nuca, o umbigo, a virilha, as
sujeiras. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu
amaria.
Você vai perder pessoas importantes ao longo da sua vida e o melhor que se fazer a respeito é agradecer pelo caminho até então compartilhado.
Pessoas que até então julgávamos indispensáveis para o nosso bem-estar e que hoje já não mantemos contato: acontece. Muitas e muitas vezes. É natural, quase que orgânico, cê vai repelir alguém da sua pele sem saber, assim como será expelido de maneira razoável e entenderá, ali, ali naquele ponto, que viver também é sobre seguir. Às vezes sem se questionar ou criar teorias do porquê da perda, da partida.
Alguns laços vão se desfazer, conhecidos passarão a nem sequer notar sua mudança (de vizinhança, estado, país, emocional, social, profissional, etc etc etc), você desconhecerá o cheiro, o aroma, a vontade de estar junto, porque algumas coisas se perdem e não precisa haver explicação.
Você vai soltar a mão da sua melhor amiga no supermercado enquanto ela decidirá seguir sozinha por aquele trajeto que a você não faz sentido. Você mudará de hábitos e consequentemente aquela pessoa, aquela mesma que te jurou amor eterno, escorrerá pela sua mão e você não conseguirá segurá-la. Vocês se desencontrarão em teses, conceitos e maneiras de observar a vida. Você vai perder alguém como se perde um dente, porque por mais cruel e inumano que isso soe, é exatamente assim o destino da vida e seus fluxos: segue, como um rio, para não voltar nunca como antes (se voltar, volta outro, diferente, com outras formas e experiencias).
Às vezes não tem nada para se extrair do fim, às vezes guardar a lembrança e todas as sensações que aquela relação te trouxe pode ser o que de mais honesto você pode entregar àquela circunstância.
Você não tem controle sobre quem quer e vai sair da sua vida, você só pode agradecer, admirar ou respeitar a ordem natural do universo.
Via facebook: TCD - Textos cruéis demais para serem lidos rapidamente
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