quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Quis voltar correndo...

quis voltar correndo. quis bater tão forte na sua porta que certamente destruiria ela e todos os cômodos da sua casa. quis gritar pra deus me levar pra qualquer lugar que não pra dentro de mim, porque era dentro de mim que te queria como ninguém nunca quis. era dentro de mim que as coisas aconteciam. as paranóias. as tristezas agudas. as vontades violentas de fugir de casa. de trocar de pele. de nunca mais tentar nada novo, com ninguém.
quis voltar correndo. pedir que você reconsiderasse o meu amor, que nunca tinha dado assim pra alguém. meu amor, que nunca tinha sido embalado tão preciosamente a ponto de nenhuma outra pessoa, além de você, ter tocado nele; ter olhado no olho dele; ter vestido e feito de roupa quentinha no frio. quis voltar correndo e perguntar por quê? por que você estava me machucando tanto se havia amor. questionava-me a todo tempo como o amor poderia, em algum momento, ser um espinho que vai entrando no pé. quanto mais andava para longe, mais doía saber. porque você continuava ali. quanto mais eu corria, mais para dentro o espinho ia. ficou na perna. estagnou no coração, músculo, artéria.
quis voltar correndo. estender meu corpo na calçada para que você não saísse para trabalhar. para que me visse em processo de crescimento: quando a casca vai saindo da pele e as asas vão crescendo. eu precisava tanto crescer. você também. mas eu queria que você visse que eu estava tentando. ainda que com dor, ainda que sem saber como respirar, ainda que precisando desesperadamente colocar a mão na boca. para não gritar. não incomodar os vizinhos. não fazer com que soubessem que eu estava em carne viva.
quis fechar meus olhos para a vida. fechei as cortinas de casa. nenhuma alegria me entrava nos poros. nenhum outro cara me fazia reluzir. nada tinha gosto na minha boca que sempre foi faminta. você me adoecia ao passo que eu tentava assimilar o que o mundo era, àquela altura pra mim.
e o que era?
não sei. nunca tive discernimento para entender aquela fase crucial para me tornar o que sou hoje.
o mundo reage à nossa visão de maneira distinta quando acumulamos conhecimento, sabedoria. naquele momento, quanto mais sabia sobre mim e conhecia meu fundo do poço, mais o mundo ia entrando no meu peito e me convidava para um caminho de reconstrução.
que não vem fácil. nunca vem.
e que é solitário. puta merda, como é solitário. 
o trajeto que você fará daqui até o dia em se encontrará livre. o caminho que você fará daqui até o dia em que, lavando a louça, perceberá que ele terá ido. graças a todos os deuses, ele terá ido. graças às vezes que você chorou apertado entre a cama e a parede para não acordar ninguém em casa. graças aos dias que você se conteve de dor, tanto que precisou fechar os olhos para não entender que aquela dor ali, aquela dor ficaria ali por mais algum tempo. porque você se conhece, no final das contas. você sabe que vai doer hoje. amanhã. daqui um mês. seu coração é terra que só você vê.
o mundo me convidada para, então, seguir.
e meus pés sangravam.
quanto mais eu caminhava, mais dor sentia.
era o espinho entrando na memória da pele e me fazendo perceber que
a distância entre nós ficava cada vez maior.
quis olhar para trás. segurar sua mão pela última vez e permanecer intacto pela ideia de que a dor sobreviria a mim, me colocaria em quartos escuros, me tiraria a sanidade por algumas semanas. quis evaporar feito água em época de verão. quis virar pó e me teletransportar para o quente e confortável que era viver sem saber que fins existem. mas existem sim, e são tantos. cotidianos, necessários, intermitentes.
quis abrir o peito para que a chuva dos dias cinzentos dormissem em mim. quis rasgar a pele para que as feridas dessem de ombros e me esquecessem. quis que o amor desaparecesse para sempre dos meus olhos, daquilo que construí e chamei de vitória.
quase bato na sua porta dia desses. os cômodos de nós dois não resistiriam a tantas coisas que eu te diria sem pudor algum. que em mim ainda há rios intermináveis de palavras que poderiam afetar aquilo que somos no agora.
mas não voltei. passei direto. 
graças ao universo que tem considerado que devo ser feliz ainda que com lembranças de quando acreditava na plenitude das relações.
e eu tenho sido.

via: @textos cruéis demais para serem lidos rapidamente  ♥

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Eu te disse desde o começo que nós éramos diferentes demais - mas isso não queria dizer que não poderíamos funcionar. 
Você, todo certinho 
Eu, toda desregrada
Você que cultiva os seus relacionamentos como quem cuida de um campo de morangos perfeito
Eu que mal aprendi a plantar.
Sabíamos que seria difícil e mesmo assim a gente quis insistir
Você, eu não sei por que
Eu, porque sabia que você tinha exatamente o quê.
O quê que eu precisava, do jeito que antes eu nunca tinha encontrado em outro alguém.
Por isso eu fui caminhando vez ou outra segurando nas suas mãos, com o meu passo incerto, inseguro, com muito medo de cair da corda bamba que eu mesma criei
E você me olhando e sorrindo com o orgulho de quem já esteve aqui e já aprendeu a se equilibrar.
deu certo.
A gente se encontrou e se encontra diariamente na nossa confusão de sentimentos que nenhum dos dois sequer tentou denominar.
Cê teve medo de que eu explodisse nas suas mãos, como uma bomba que não pôde desarmar
e
eu explodi
mas pela primeira vez foi uma explosão mansa, calma, que ao invés de te machucar
te mostrou que furacões como eu também podem aprender a ser serenos.

Periférico

               Pareço um sapo cego dando uma linguada no ar, não vejo o inseto, mas sei que ele está lá. Molho o ar na espera de lamber sua coxa, a pele com menos pêlos atrás do seu joelho. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo perfeito e boquiaberto por causa da barriguinha. Quem sabe descobrir alguma sujeirinha ali no umbigo, um resto de algodão, um resto de salgadinho vagabundo, um resto de prazer. Eu te amava depois do banho, eu te amava indo trabalhar sujo de mim, eu te amava humano e eu te amava, sobretudo, alienígena e com sono de sentir a vida.

                Sinto saudades de respirar o mais profundo possível, como já escrevi antes, perto de sua nuca. E descobrir novidades sem nome e sem solução. Sinto saudades de me perder tentando entender de que tanto você sorria, de que tanto você brilhava, de que tanto você se perdia e se escondia.

                Peço licença ao meu ódio tão feio e tão infinito para te amar só mais uma vez. Quero te amar sozinha aqui, na minha casa nova, em minha quase nova vida. Quero esquecer todo o nada que você representa e dar contorno aos desenhos que não saem da minha cabeça. Nunca entendi seu coração, nunca entendi seus olhos, nunca entendi suas pernas, mas só por hoje queria poder lamber sua fumaça para que ela permanecesse mais, pesasse mais.

                É libertador esquecer meu desejo de vingança, a vontade que tenho de explodir sua vida, o vício que tenho de passar mil vezes por dia, em pensamento, ao seu lado. E pisar em cima da sua inexistência e liberdade. Chega disso, só pelo tempo em que durarem estas letras e a música que coloco para reviver você, vou te amar mais esta vez. Vou me enganar mais uma vez, fingindo que te amo às vezes, como se não te amasse sempre.

                Eu nunca aceitei a simplicidade do sentimento. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta loucura, tanta emoção. Eu nunca respeitei sua banalidade, nunca entendi como podia ser tão escrava de uma vida que não me dizia nada, não me aquietava em nada, não me preenchia, não me planejava, não me findava.

                Nós éramos sem começo, sem meio, sem fim, sem solução, sem motivo. Ainda assim, há meses, há séculos que se arrastam deixando tudo adulto demais, morto demais, simples demais, exato e triste demais, eu sinto sua falta com se tivesse perdido meu braço direito
.
                Esse amor periférico, ainda que não me deixe descoberto o peito, me descobre os buracos. Não são de suas palavras que sinto falta. Não é da sua voz meio burralda e do seu bocejo alto demais para me calar e me implorar menos sentimentos. Não é, tampouco, do seu abraço. Sua presença sempre deixou lacunas e friagens que zumbiam macabramente entre tantas frestas sem encaixe.

                Não sinto saudades do seu amor, ele nunca existiu, nem sei que cara ele teria, nem sei que cheiro ele teria. Não existe morte para o que nunca nasceu.

                Sinto falta mesmo, para maior desespero e inconformismo do meu coração metido a profundo, de lamber suas coxas, a pele mais lisa atrás dos joelhos. Lamber sua virilha, sentir seu cheiro, brincar com seu umbigo, respirar sua nuca, engolir sua simplicidade, me rasgar com sua banalidade, calar sua estupidez, respirar seu ronco, tocar sua inexistência, espirrar com sua fumaça.

                Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.

                Simplesmente isso. Você, uma pessoa sem poesia, sem dor, sem assunto para aguentar o silêncio, sem alma para aguentar apenas a nossa presença, sem tempo para que o tempo parasse. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza.

                Sinto falta da raiva, disfarçada em desprezo, que você tinha em nunca me fazer feliz, sinto falta da certeza de que tudo estava errado, mas do corpo sem forças para fugir, sinto falta do cheiro de morte que carregávamos enquanto ainda era possível velar seu corpo ao meu lado, sinto falta de quando a imensa distância ainda me deixava te ver do outro lado da rua, passando apressado com seus ombros perfeitos. Sinto falta de lembrar que você me via tanto, que preferia fazer que não via nada. Sinta falta da sua tristeza, disfarçada em arrogância, de não dar conta, de não ter nem amor, nem vida, nem saco, nem músculos, nem medo, nem alma suficientes para me reter.

                Prometi não tentar entender e apenas sentir, sentir mais uma vez, sentir apenas a falta de lamber suas coxas, a pele lisa, o joelho, a nuca, o umbigo, a virilha, as sujeiras. Sinto falta do mistério que era amar a última pessoa do mundo que eu amaria.

Você vai perder pessoas importantes ao longo da sua vida e o melhor que se fazer a respeito é agradecer pelo caminho até então compartilhado.
Pessoas que até então julgávamos indispensáveis para o nosso bem-estar e que hoje já não mantemos contato: acontece. Muitas e muitas vezes. É natural, quase que orgânico, cê vai repelir alguém da sua pele sem saber, assim como será expelido de maneira razoável e entenderá, ali, ali naquele ponto, que viver também é sobre seguir.  Às vezes sem se questionar ou criar teorias do porquê da perda, da partida. 
Alguns laços vão se desfazer, conhecidos passarão a nem sequer notar sua mudança (de vizinhança, estado, país, emocional, social, profissional, etc etc etc), você desconhecerá o cheiro, o aroma, a vontade de estar junto, porque algumas coisas se perdem e não precisa haver explicação. 
Você vai soltar a mão da sua melhor amiga no supermercado enquanto ela decidirá seguir sozinha por aquele trajeto que a você não faz sentido. Você mudará de hábitos e consequentemente aquela pessoa, aquela mesma que te jurou amor eterno, escorrerá pela sua mão e você não conseguirá segurá-la. Vocês se desencontrarão em teses, conceitos e maneiras de observar a vida. Você vai perder alguém como se perde um dente, porque por mais cruel e inumano que isso soe, é exatamente assim o destino da vida e seus fluxos: segue, como um rio, para não voltar nunca como antes (se voltar, volta outro, diferente, com outras formas e experiencias).
Às vezes não tem nada para se extrair do fim, às vezes guardar a lembrança e todas as sensações que aquela relação te trouxe pode ser o que de mais honesto você pode entregar àquela circunstância.
Você não tem controle sobre quem quer e vai sair da sua vida, você só pode agradecer, admirar ou respeitar a ordem natural do universo.

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