segunda-feira, 20 de junho de 2011

O Contrário do Amor


O contrário de bonito é feio, de rico é pobre, de preto é branco, isso se aprende antes de entrar na escola. Se você fizer uma enquete entre as crianças, ouvirá também que o contrário do amor é o ódio. Elas estão erradas. Faça uma enquete entre adultos e descubra a resposta certa: o contrário do amor não é o ódio, é a indiferença.

O que seria preferível, que a pessoa que você ama passasse a lhe odiar, ou que lhe fosse totalmente indiferente? Que perdesse o sono imaginando maneiras de fazer você se dar mal ou que dormisse feito um anjo a noite inteira, esquecido por completo da sua existência? O ódio é também uma maneira de se estar com alguém. Já a indiferença não aceita declarações ou reclamações: seu nome não consta mais do cadastro.

Para odiar alguém, precisamos reconhecer que esse alguém existe e que nos provoca sensações, por piores que sejam. Para odiar alguém, precisamos de um coração, ainda que frio, e raciocínio, ainda que doente. Para odiar alguém gastamos energia, neurônios e tempo. Odiar nos dá fios brancos no cabelo, rugas pela face e angústia no peito. Para odiar, necessitamos do objeto do ódio, necessitamos dele nem que seja para dedicar-lhe nosso rancor, nossa ira, nossa pouca sabedoria para entendê-lo e pouco humor para aturá-lo. O ódio, se tivesse uma cor, seria vermelho, tal qual a cor do amor.

Já para sermos indiferentes a alguém, precisamos do quê? De coisa alguma. A pessoa em questão pode saltar de bung-jump, assistir aula de fraque, ganhar um Oscar ou uma prisão perpétua, estamos nem aí. Não julgamos seus atos, não observamos seus modos, não testemunhamos sua existência. Ela não nos exige olhos, boca, coração, cérebro: nosso corpo ignora sua presença, e muito menos se dá conta de sua ausência. Não temos o número do telefone das pessoas para quem não ligamos. A indiferença, se tivesse uma cor, seria cor da água, cor do ar, cor de nada.

Uma criança nunca experimentou essa sensação: ou ela é muito amada, ou criticada pelo que apronta. Uma criança está sempre em uma das pontas da gangorra, adoração ou queixas, mas nunca é ignorada. Só bem mais tarde, quando necessitar de uma atenção que não seja materna ou paterna, é que descobrirá que o amor e o ódio habitam o mesmo universo, enquanto que a indiferença é um exílio no deserto.



Martha Medeiros

domingo, 19 de junho de 2011

Os outros


Todos os outros só me serviram pra provar o quanto ele era perfeito, mesmo sendo o mais cheio de defeitos. Todos os outros só me trouxeram uma saudade ainda mais dolorida dele, só me fizeram querer ele mais perto, só me deram forças pra buscá-lo. Nenhum foi amor, nenhum foi paixão, nenhum foi motivo de insônia ou de sono profundo. Todos os outros foram apenas pedagogia, um jeito que Deus encontrou de me ensinar que ele era o certo. Com nenhum eu quis ver estrelas, nem ter filhos, nem casar. Com nenhum eu quis casa no campo, nem promessas, nem futuro. Os meus olhos já não disfarçam a frustração de ter passado por todos os outros como quem passa por nenhum. O meu corpo cansou de não ser entregue e a minha alma cansou de vê-lo tão solto e ao mesmo tempo tão longe de todos os outros. De uns eu tive compromisso, de outros expectativas e dos restantes apenas o sabor da conquista. Mas de todos os outros eu tive mais que dele, eu tive muito e tive tudo, só que 'tudo' era 'nada' porque nenhum era ele. Eu ganhei olhares, presentes, beijos e milhões de esperanças de que poderia dar certo. Mas sem ele todo o caminho era escuro, sem graça, nojento e errado. Com todos os outros foi 'amor' de meia hora, de 3 meses, de 1 ano, mas com nenhum foi amor de uma vida ou de 3 mil vidas como é com ele. Eu tive frequência nas ligações, eu tive 'namorando' no orkut, eu tive amizade colorida e nada disso me deu tanto prazer quanto ver as tentativas frustradas dele de não demonstrar sentimentos. Todos os outros compraram um lugar, mas nenhum deles teve assento, todos ficaram em pé enquanto ele tinha camarote de graça. Eu não deitei o meu cabelo molhado no peito de nenhum, eu não fiz nenhuma outra barriga de travesseiro, eu não pedi de nenhum fidelidade e todos os meus ciúmes foram fingidos. Porque eu concentrei todas as minhas forças nele, e só no peito dele os meus cabelos poderiam se enroscar, só na vida dele a minha vida faria sentido.


(Amanda Telles)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

De tudo o que ele me deu, o melhor foi um pé na bunda.



Depois de um bom tempo dizendo que eu era a mulher da vida dele, um belo dia eu recebo um e-mail dizendo "olha, não dá mais". Tá certo que a gente tava quase se matando e que o namoro já tinha acabado mesmo, mas não se termina nenhuma história de amor (e eu ainda amava muito ele) com um e-mail, não é mesmo? Liguei pra tentar conversar e terminar tudo decentemente e ele respondeu "mas agora eu to comendo um lanche com os caras". Enfim, fiquei pra morrer algumas semanas até que decidi que precisava ser uma mulher melhor para ele. Quem sabe eu ficando mais bonita, mais equilibrada ou mais inteligente, ele não voltava pra mim? Foi assim que me matriculei simultaneamente numa academia de ginástica, num centro budista e em um curso de cinema.

Nos meses que se seguiram eu me tornei dos seres mais malhados, calmos, espiritualizados e cinéfilos do planeta. E sabe o que aconteceu? Nada, absolutamente nada, ele continuou não lembrando que eu existia. Aí achei que isso não podia ficar assim, de jeito nenhum, eu precisava ser ainda melhor pra ele, sim, ele tinha que voltar pra mim de qualquer jeito. Decidi ser uma mulher mais feliz, afinal, quando você é feliz com você mesma, você não põe toda a sua felicidade no outro e tudo fica mais leve. Pra isso, larguei de vez a propaganda, que eu não suportava mais, e resolvi me empenhar na carreira de escritora, participei de vários livros, terminei meu próprio livro, ganhei novas colunas em revistas, quintupliquei o número de leitores do meu site e nada aconteceu. 

Mas eu sou taurina com ascendente em áries, lua em gêmeos e filha única! Eu não desisto fácil assim de um amor, e então resolvi que eu tinha que ser uma super ultra mulher para ele, só assim ele voltaria pra mim. Foi então que passei 35 dias na Europa, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares geniais, controlando meu pânico em estar sozinha e longe de casa, me tornando mais culta e vivida. Voltei de viagem e tchân, tchân, tchân: nem sinal de vida.

Comecei um documentário com um grande amigo, aprendi a fazer strip, cortei meu cabelo 145 vezes, aumentei a terapia, li mais uns 30 livros, ajudei os pobres, rezei pra Santo Antonio umas 1.000 vezes, torrei no sol, fiz milhares de cursos de roteiro, astrologia e história, aprendi a nadar, me apaixonei por praia, comprei todas as roupas mais lindas de Paris. Como última cartada para ser a melhor mulher do planeta, eu resolvi ir morar sozinha. Aluguei um apartamento charmoso, decorei tudo brilhantemente, chamei amigos para a inauguração, servi bom vinho e comidinhas feitas, claro, por mim, que também finalmente aprendi a cozinhar. Resultado disso tudo: silêncio absoluto.

O tempo passou, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais feliz para ele, mais bonita para ele, mais mulher para ele. Até que algo sensacional aconteceu. Um belo dia eu acordei tão bonita, tão feliz, tão realizada, tão mulher que eu acabei me tornando mulher demais para ele.

Ele quem mesmo?




(Tati Bernardi)