"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada, eu sempre perdia todos pelos bares, só uma garrafa de conhaque barato apertada contra o peito, parece falso dito desse jeito, mas bem assim eu ia no meio da chuva, eu enfiava as mãos avermelhadas nos bolsos e ia indo, eu ia pulando as poças d’água com as pernas geladas. Tão geladas as pernas e os braços e a cara que pensei em abrir a garrafa para beber um gole, mas não queria chegar meio bêbado na casa dele, hálito ardido, eu não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando sem táxi naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido, e eu não queria que ele pensasse que eu andava insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, para que ele não visse meu dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando, sem ir ao dentista, e eu andava, e tudo que eu andava eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era."
Caio Fernando Abreu
domingo, 31 de janeiro de 2010
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Bem Assim
Quando ela estiver com outro
A dor é educada fora de casa. Dentro dos limites do portão, pode chorar, espernear, jogar objetos pela janela, quebrar os cds, empurrar os livros da estante. Em público, é cortês e polida. Não significa que não está louca por um escândalo. Está e se contém e se censura.
No amor, morre-se em segredo, numa hemorragia interna, sem ferimento a pôr as pessoas em desespero ao seu redor tentando socorrê-lo.
Não há quem não tenha sofrido o enfrentamento de encontrar uma paixão com outro namorado. Onde menos se espera, constatar que ela o esqueceu ou finge esquecer com habilidade. Que não era insubstituível, que é uma foto queimada e chaves devolvidas.
Na vulnerabilidade de uma conversa entre amigos, seu rosto fica branco ao reparar ela beijando e abraçando um estranho. Corre ao banheiro para banhar o pescoço e aliviar a queimação. É um ódio e uma desvalia enormes como se a traição acontecesse ainda no momento que permaneciam juntos. Só que vocês não estão mais juntos. Nem se observa muito para não dar na vista. Não se olha nos olhos dela. De canto, percebe as mãos dela fazendo movimentos circulares nas costas dele, a pedir com volúpia a aproximação da cintura. Igualzinho como na época do namoro contigo.
É um drama rever quem se gostava comprometida. Seria sorte se apenas os cotovelos doessem - é todo o corpo. Toda a ausência do corpo dela no seu.
Esperava que a vida conspirasse a favor, de que ainda voltariam. Não fez nada para que acontecesse o retorno, mas esperava que o tempo parasse para pensar e facilitasse a reconciliação.
De repente, ela não está desejando uma revanche, vive a possibilidade de amar de novo. É difícil aceitar isso, queria que ela estivesse trancada no quarto, de luto, chorando um morto, enquanto você saía e aproveitava a noite. Nenhuma alma o convencerá do contrário. Tende ao exagero, a distorção. Ela abraça o cara e entende que se esfrega nele, ela o beija e entende que o lambe.
Alheio à verdade (a verdade pouco importa diante do coração), reconhece a cena como uma vingança calculada, um acerto de contas. Elabora a tese de que ela apareceu justamente no bar que freqüenta para suscitar o ciúme e abalar suas convicções de despedida.
Baba de raiva, de dó, de pena de seu futuro. Ela acena. Não existe saída para fugir de falar com ela; decide se aproximar do casal. Cumprimenta o novo namorado com formalidade e distanciamento. Pergunta como ela vai e suporta escutar um "nunca estive tão bem".
Apesar dos calafrios, não retruca. Apesar da vontade de virar a mesa e ofendê-la de cadela, não retruca. Apesar do ímpeto de esmurrar o nariz do rapaz e findar aquela felicidade inconsciente de mosca na teia de aranha, não retruca. Não, não diz nada. Perdeu o domínio de revidar.
A dor faz nascer um orgulho inquebrantável.Orgulho insensível e gélido. Orgulho de animal do pântano, acostumado a rastejar no escuro. Não entregará o que sente. Calará para sempre. Agora sim é um morto, como queria que ela o tratasse. Mas ela não chora por você. É o morto que chorará em casa. Sozinho, debaixo da terra dos lençóis. Chorará a impossibilidade de ser honesto.
(Fabrício Carpinejar)
Assim...
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
(Clarice Lispector - Para não esquecer)
(Clarice Lispector - Para não esquecer)
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